Obsession e a história não contada de Nikki
Atenção, esse texto contém spoilers do filme Obsession (2026)
Para quem não viu o filme e aceita os termos e condições de receber spoilers, aí vai um breve resumo:
Obsession conta a história de Bear, um adolescente apaixonado por sua amiga Nikki, que decide usar um feitiço para fazê-la se apaixonar por ele também.
Assim como Talk to Me, o filme parte de uma premissa simples: colocar uma tecnologia sobrenatural poderosa nas mãos de adolescentes e observar o desastre acontecer.
À primeira vista, a premissa pode soar como uma mistura de comédia e thriller, e o filme realmente funciona muito bem nesse registro. Mas, para mim, o mais interessante está nas camadas que existem por baixo dessa história.
Duas delas me chamaram particularmente a atenção: o ponto de vista da garota enfeitiçada e o paralelo que o diretor constrói com o uso de IA.
Hoje resolvi comentar sobre o primeiro ponto.
Tenho certeza de que, se eu assistir a esse filme novamente, vou encontrar mais sinais. Mas comecei a perceber essa história sendo contada a partir dos lapsos de consciência da verdadeira Nikki, quando notei suas tentativas de emergir e pedir ajuda para sair daquele feitiço.
Isso me fez pensar: como foi tudo isso para ela?
Parece ter sido horrível e traumático.
Nunca saberemos exatamente, mas os sinais estão ali.
Na cena da festa Nikki recita uma espécie de conto sombrio inspirado em Hansel e Gretel e surgem indícios de que Nikki via Bear quase como um irmão.
Foi a partir daí que comecei a me perguntar como aquela relação era percebida pela Nikki original, antes do feitiço.
Para ela, ele é alguém que ocupa um lugar completamente diferente daquele que o feitiço tenta impor. Ela está sendo forçada a sentir um amor que não existe e, inclusive, a ter relações sexuais com alguém que enxerga de outra forma.
Quando Bear começa a se arrepender do que fez, ele não pensa em desfazer o feitiço por completo. Sua primeira reação é buscar uma solução intermediária. Ele ainda quer mantê-la como namorada.
Mesmo com tudo dando errado, mesmo vendo que ela está sofrendo, mesmo percebendo que aquela não é, de fato, a Nikki.
Foi na cena da cama que essa leitura se consolidou para mim. A verdadeira Nikki consegue submergir do fundo de sua consciência e pede socorro já sabendo que a única solução é morrer, se existia dúvidas de que ela estava enfeitiçada mas consciente e em sofrimento, não existe mais. Ela implora para morrer, mas ele simplesmente a ignora.
E ele não apenas ignora os sinais. Passa a reforçar a narrativa do pai doente, mesmo sabendo que aquilo é mentira, só para manter a sujeira debaixo do tapete.
Ele não humaniza Nikki. Ama, acima de tudo, a possibilidade de finalmente possuí-la como sua namorada perfeita dos contos de fadas.
Quando ela começa a agir de forma estranha, ele grita várias vezes: “Aja como ela, aja como a Nikki”, como se ela fosse um brinquedo quebrado.
Isso também aparece na cena em que ela quebra uma garrafa no próprio rosto, ainda durante a festa. Bear parece mais envergonhado do que preocupado e só toma alguma atitude quando os amigos o pressionam a levá-la ao hospital.
Uma das coisas que mais me chamou atenção é que garotos héteros também têm seus próprios contos de fadas e, no mesmo pacote, também os devidos sintomas que aparecem com base na expectativa criada na infância e adolescência dos papéis de gênero. E no filme, enquanto ele vivia seu conto de fadas, ela vivia uma história de terror.
E, para quem achou que o filme não foi explícito o suficiente ao representar o caráter do protagonista, talvez exista aí um desencontro de expectativas. A forma como Bear é construído me parece muito mais próxima da realidade sutil do abuso e da violência que mulheres sofrem na vida real.
No final, quando escutamos o choro e os gritos desnorteados de Nikki — que me lembraram o final da Sally em O Massacre da Serra Elétrica — foi quando entendi que ela era uma final girl.


